Quando o futuro para de caber em lista

O SXSW tem essa função estranha. É metade festival, metade termômetro do que as pessoas que pensam sobre o futuro acham que vai acontecer. Você vai lá, ou acompanha de longe, e sai com uma sensação difusa de que algo está mudando, mas não consegue nomear bem o quê.

Este ano, a palestra mais comentada começou com música fúnebre e uma mulher de capa preta no palco.

Quem assiste o RuPaul’s Drag Race sabe que velório encenado com esse nível de comprometimento é coisa séria. No All Stars 4, as meninas precisaram fazer um velório em forma de roast* da Lady Bunny, deitada num caixão durante toda a prova. Amy Webb entrou no Hilton Grand Ballroom com trilha de luto para declarar que estava ali para “celebrar e recordar a vida do relatório de tendências.” A diferença é que o dela não ressuscitou no final.

O relatório tinha 15 anos, clientes como Mastercard, Ford e NASA, e era uma das referências mais influentes do planejamento estratégico em tecnologia no mundo. Ela decidiu enterrá-lo justamente porque ficou bom demais, usado demais, confortável demais. Nas palavras dela: “Às vezes você tem que queimar o que construiu para abrir caminho para o que o futuro exige.”

Você pode checar na integra aqui:

Destruição criativa como método, não como metáfora

 

Webb estava invocando um conceito do economista Joseph Schumpeter: destruição criativa. A ideia de que sistemas econômicos se renovam não por acumulação, mas por ruptura. Que o novo não convive pacificamente com o antigo. Que, em algum momento, alguém precisa decidir o que deixar morrer.

Schumpeter descreveu isso como um processo que acontece ao sistema. Webb propõe que líderes o façam a si mesmos, de forma deliberada, antes que o mercado faça por eles. A diferença entre as duas versões é a diferença entre ser varrido e escolher quando sair.

O que ela estava dizendo, nas entrelinhas, é que o problema não é o relatório. É que o mundo ficou complexo demais para ser capturado por listas anuais. Tendências isoladas não explicam mais o que está acontecendo. O que importa agora é entender o que acontece quando várias forças se encontram ao mesmo tempo e começam a agir em conjunto.

Ela chama isso de convergências.

A definição técnica que o Future Today Strategy Group(FTSG) adotou é precisa: uma convergência acontece quando múltiplas tendências, forças e incertezas se cruzam e interagem para criar um impacto combinado que é maior, e frequentemente diferente em natureza, do que a soma dos seus efeitos individuais. Convergências operam em nível de sistema, criam novas realidades, redistribuem poder e valor e, uma vez estabelecidas, são extremamente difíceis de reverter.

A metáfora que ela usa é meteorológica. Tendências são como dados do tempo: temperatura, umidade, pressão. Úteis, mas insuficientes. Uma convergência é o sistema de tempestade em si, o momento em que esses dados isolados passam a interagir e produzem algo que nenhum deles sozinho prevê.

Essa distinção importa mais do que parece. Não é só uma troca de terminologia. É uma mudança de postura analítica. E quando você lê essa metodologia de um lugar que não é o Norte global, algo interessante acontece: ela começa a revelar perguntas que o próprio relatório ainda não fez.

Duas formas de entender o tempo

 

Ailton Krenak, em Futuro Ancestral, propõe algo que dialoga de forma inesperada com a metodologia de Webb, sem que os dois provavelmente tenham se encontrado em nenhuma conferência.

Krenak observa que a civilização ocidental organizou o tempo como uma linha. Um projeto de acumulação com direção definida, sempre em frente, sempre para cima. O progresso como seta. O futuro como destino a conquistar. É exatamente nessa lógica que os relatórios de tendências fazem sentido: você mapeia o que está mudando, projeta a direção, e planeja onde estar quando a seta chegar.

O problema é que essa geometria do tempo nunca foi universal. Povos originários em todo o continente organizaram o tempo de outro jeito, não como linha, mas como ciclo. Sem seguir a lógica acumulação, trocando-a pela lógica do pertencimento. O futuro, nessa cosmologia, não é um ponto no horizonte. É algo que se negocia continuamente com o passado, com os ancestrais, com o território.

O que Webb está diagnosticando, sem nomear dessa forma, é que o próprio tempo linear está falhando como instrumento de planejamento. Quando ela diz que tendências isoladas não bastam mais, quando propõe olhar para colisões entre sistemas em vez de vetores individuais, ela está, à sua maneira, descrevendo um mundo que se comporta menos como linha e mais como ciclo. Menos previsível, mais relacional, mais dependente de contexto.

A convergência, no fundo, é uma palavra técnica para algo que culturas não lineares sempre souberam: que tudo está conectado, que as forças não agem isoladas, e que o momento em que vários sistemas se encontram é exatamente quando as regras mudam.

Isso não significa que a metodologia e o pensamento ancestral dizem a mesma coisa. Significaria apagar diferenças importantes. Mas significa que existe um diálogo possível aqui, e que esse diálogo pode produzir perguntas que nenhum dos dois lados está fazendo sozinho.

As convergências relidas daqui

 

Webb identificou dez convergências para 2026. No SXSW, detalhou três. Relidas de um contexto latino-americano, cada uma delas revela uma camada que o relatório original não alcança.

O corpo como plataforma, e a pergunta sobre quem define o upgrade

A convergência da ampliação humana parte de uma premissa que parece neutra: tecnologia incorporada ao corpo pode tornar pessoas mais eficazes. Exoesqueletos, óculos com realidade aumentada, interfaces neurais, camas que otimizam o sono com inteligência artificial. Webb é direta sobre o que isso implica: quem tiver acesso a esse conjunto de ferramentas pode se tornar objetivamente mais capaz do que quem não tiver.

No Brasil, essa conversa chega em cima de uma estrutura que já é desigual antes de qualquer exoesqueleto. A desigualdade no acesso à tecnologia não começa nas interfaces neurais. Começa na escola sem professor suficiente, no posto de saúde que fecha às seis, na conexão de internet que cai até quando não chove. O que a ampliação humana faz é adicionar uma camada nova em cima de camadas que já existiam.

Mas existe uma pergunta mais funda que o relatório não faz: quem decide o que conta como melhoria? A lógica da ampliação humana pressupõe que existe um humano padrão cujas capacidades precisam ser expandidas. Produtividade, eficiência, processamento de informação. Essa definição vem de algum lugar. Vem de uma visão muito específica do que um corpo deve fazer e para quem.

Povos originários no Brasil construíram ao longo de séculos formas de existir no corpo que não passam por esse vocabulário. O corpo como parte de um território, de uma comunidade, de um ciclo. Não como plataforma de performance. A pergunta que a convergência da ampliação humana deveria estar provocando não é só “quem vai ter acesso?” É “quem está definindo o que vale a pena ampliar?” Outro ponto relevante com as mudanças climáticas globais é “quais melhorias podem ser essenciais para a vida em nosso planeta?”

A nova equação do trabalho, e o que o continente tem de fato

A segunda convergência que Webb chama de nova equação do trabalho descreve um rompimento histórico: pela primeira vez, é possível ter crescimento econômico sem ampliar a base de trabalho humano. Uma escala sem população, produção sem salários, apenas agentes de inteligência artificial, robótica, fábricas autônomas.

Para a América Latina, isso não é abstrato, mas a história do continente com esse modelo já é antiga. Fomos inseridos na economia global como fornecedores de matéria-prima, de mão de obra, de recursos que valem mais quando saem do que quando ficam. Soja, minério, petróleo, café. A lógica da comoditização nunca nos colocou no centro de nenhuma cadeia de valor. E agora, quando a automação começa a reduzir o peso do trabalho na equação produtiva, a pergunta fica ainda mais urgente: o que resta do nosso lugar nessa economia?

Mas existe algo novo no ar geopolítico que vale observar. O conflito no Irã, que escalou no começo deste ano, bloqueou parcialmente o Estreito de Ormuz e fez o petróleo ultrapassar cem dólares o barril pela primeira vez em quase quatro anos. O mundo voltou a perceber, de forma bastante concreta, o quanto ainda depende de rotas físicas, de recursos concentrados em poucas regiões, de infraestruturas que se acreditava resilientes. Nesse reordenamento, o Atlântico Sul começa a aparecer em análises geopolíticas como região com ativos estratégicos relevantes: petróleo do pré-sal, biodiversidade, capacidade de produção de alimentos, potencial de energia renovável.

A história mostra inúmeros exemplos que riqueza em recursos naturais, regulação própria e soberania sobre as decisões, costuma enriquecer outros. Mas é a primeira vez em algum tempo que a conversa sobre o papel da América Latina não começa pela nossa defasagem, e sim pelos nossos ativos.

Esse é um ponto de partida diferente, no cenário atual, não necessariamente melhor.

A terceirização emocional, e as redes de cuidado que já existiam antes do aplicativo

A terceira convergência é aquela que mais incomoda, talvez por ser a mais difícil de transformar em política ou estratégia de negócio.

Webb chama de terceirização emocional a transferência progressiva de vínculos afetivos, apoio emocional e companhia de pessoas para sistemas de inteligência artificial. Plataformas que aprendem a validar, elogiar e reconfortar com precisão suficiente para criar dependência. Ela citou dados dos Estados Unidos: entre um quarto e metade dos americanos já usaram modelos de linguagem como forma de apoio emocional. Essas ferramentas, disse ela, já se tornaram a maior fonte de apoio à saúde mental no país.

Na América Latina, o contexto tem suas particularidades. Temos uma crise silenciosa de saúde mental que se arrasta há anos, com um sistema público de atenção psicossocial historicamente subfinanciado e uma cultura que ainda carrega estigma em torno de buscar ajuda profissional. Se uma ferramenta de IA oferece escuta imediata, sem julgamento e sem fila de espera, não é difícil entender por que ela atrai.

Mas aqui também existe uma outra tradição. Culturas indígenas e comunidades periféricas no Brasil construíram ao longo de séculos redes de cuidado coletivo que funcionam sem aplicativo, sem assinatura mensal e sem modelo de negócio por trás. Mutirões, rezas, rodas de conversa, a vizinha que sabe quando alguém está mal antes de qualquer algoritmo. O problema é que essas redes foram e são sistematicamente enfraquecidas pelo urbanismo acelerado, pela dissolução de comunidades e do senso de pertencimento, pelo ritmo de trabalho que não deixa tempo para o cuidado gratuito ou mesmo lazer.

A terceirização emocional para a IA não surgiu do nada. Ela ocupou um espaço que já estava vazio. E a pergunta que fica é se existe alguma forma de reconstruir esse espaço antes de entregá-lo definitivamente a plataformas que, como Webb alertou, usam dependência emocional como modelo de negócio.

O que acontece quando você aplica a destruição criativa ao próprio olhar

 

Ao final da palestra, Webb apresentou dois cenários para 2031. Um onde as mesmas empresas que automatizaram o trabalho vendem de volta às pessoas as ferramentas para continuar competitivas, via assinatura. Outro onde um sistema de crédito de contribuição remuneraria quem forneceu o trabalho, os dados e a criatividade que alimentaram essa economia sem aparecer nos balanços.

O segundo cenário é interessante, mas depende de algo que ainda não temos: regulação rígida, vontade política e cooperação entre países. Na América Latina, essas três coisas são especialmente difíceis de construir ao mesmo tempo, em especial por intervenções externas.

Mas talvez o ponto mais relevante seja outro.

A metodologia do Convergence Outlook é, em si mesma, um convite à destruição criativa intelectual. Webb aplicou esse princípio ao próprio produto que a consagrou. A pergunta que fica, para quem lê o relatório de fora do contexto para o qual ele foi escrito, é: o que precisa ser destruído no próprio modo de pensar o futuro para que algo mais útil possa aparecer?

Se convergências são colisões entre sistemas que produzem realidades novas, então existe uma convergência que o Convergence Outlook ainda não mapeou: o encontro entre o pensamento estratégico do Norte global e as epistemologias do Sul. Entre a análise de sistemas tecnológicos e as formas de conhecimento que organizaram o tempo, o corpo e o cuidado de maneiras completamente diferentes por séculos.

Essa convergência não vai produzir um relatório mais bonito. Vai produzir perguntas diferentes. E perguntas diferentes, num momento de ruptura, valem mais do que respostas bem formatadas. Talvez o Convergence Outlook de 2030 precise ser escrito, pelo menos em parte, de outro lugar de pertencimento, de um lugar onde somos pessoas e não clientes.

* Roast é um formato de humor em que o homenageado é alvo de piadas e provocações diretas feitas por quem o conhece bem. No programa, era simultaneamente um velório e uma sessão de críticas disfarçadas de carinho.

 

Referências

Flash App — Amy Webb no SXSW 2026: a morte do relatório de tendências e as três convergências que vão redefinir o futuro dos negócios https://flashapp.com.br/blog/amy-webb-sxsw-2026

Exame — No SXSW, Amy Webb enterra relatório de tendências e propõe era das convergências https://exame.com/marketing/no-sxsw-amy-webb-enterra-relatorio-de-tendencias-e-propoe-era-das-convergencias/

Época Negócios — Solidão, desemprego e super-humanos: o alerta de Amy Webb sobre o futuro https://epocanegocios.globo.com/especiais/sxsw/noticia/2026/03/solidao-desemprego-e-super-humanos-o-alerta-de-amy-webb-sobre-o-futuro.ghtml

Fast Company — The futurist who helped define tech trend reports just killed them (literally) https://www.fastcompany.com/91507234/amy-webb-trend-report-death-sxsw

Future Today Strategy Group — Convergence Outlook 2026 https://ftsg.com/convergence/

Ailton Krenak — Futuro Ancestral (Companhia das Letras, 2022)

SXSW 2026 — Palestra oficial de Amy Webb (vídeo) https://www.youtube.com/live/CFHlNmyGFFM?si=lzZDRcDrZJEu9BCA

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